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21 dias de ativismo contra o racismo: Conselho Jovem do Decola Cria debate sobre o Movimento Negro no IPCN

No dia 17 de março, ocorreu o encontro sobre Movimento Negro, Cultura e Ativismo no Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), realizado pelo Conselho Jovem do Decola Cria, iniciativa da qual o Cedaps é parceiro articulador no Rio de Janeiro.. O evento faz parte da Campanha 21 dias de Ativismo Contra o Racismo, promovida por organizações do movimento negro e ativistas com o objetivo promover ações e debates sobre os impactos sociais do racismo.

Realizado em um espaço simbólico do ativismo e resistência negra, o encontro reuniu jovens, ativistas, pesquisadoras e lideranças históricas do movimento negro para refletir sobre a importância da organização política, da memória e da cultura como ferramentas de enfrentamento ao racismo estrutural.

Mesa 1 – Movimentos políticos negros e sua importância para a articulação

A primeira mesa “Movimentos políticos negros e sua importância para a articulação” foi composta por Luana Xavier, assistente social e pesquisadora integrante do IPCN, Juliana Martins, especialista em Polítcas Públicas, e  Vânia Santana, historiadora, pesquisadora e figura histórica do ativismo negro no Rio de Janeiro. 

Em sua fala, Luana Xavier fez uma reconstrução da história do movimento negro e seu protagonismo no debate público sobre desigualdade racial, especialmente na década de 1980, tendo o ano de 1988 como marco da aboliação e ano em que foi promulgada a Constituição de 1988. 

Ela destacou também o papel da pesquisa acadêmica e a inclusão de pessoas negras na Universidade como formas potentes de enfrentamento concreto ao racismo. No Rio de Janeiro, o IPCN foi nessa época, e segue sendo, um espaço de encontro, pesquisas e debates sobre racismo e a luta por direitos, dentre eles, a luta pelas cotas raciais na década de 1990. Em todo o Brasil, a luta de pesquisadores e ativistas resultou na conquista histórica das políticas de cotas para pessoas negras nas Universidades, tendo a UNB e a UERJ como pioneiras. 

A pesquisadora resgatou ainda a articulação entre ativistas e organizações como CECAN, o Ilê Aiyê e o IPCN, que promoveram a mobilização política e iniciativas culturais, dentre elas, a Marcha contra a farsa da abolição e a Marcha do Zumbi dos Palmares, que reuniu cerca de 30.000 pessoas em Brasília em 1995.

Já Juliana Martins refletiu sobre a luta do movimento a partir de suas próprias experiências e atuação, destacando a articulação com o movimento de mulheres negras, cis e trans, voltada para estratégias de incidência política, como fundamental para a promoção e avanço de políticas públicas. Ela destaca ainda a importância da educação básica e da formação política de jovens no debate de temas urgentes para a população negra, como pautas de acesso a direitos à saúde, educação, cultura, emprego e renda. Ressalta, ainda, a necessidade de construir um debate propositivo na construção de políticas públicas efetivas, não a partir do que “falta”, mas do que precisa ser conquistado. 

Encerrando a mesa, Vânia Santana trouxe uma leitura histórica e política do racismo no Brasil. A debatedora relembrou sua trajetória no IPCN, onde desde os 17 anos atua como ativista, ressaltando a importância de manter vivos espaços centrais de mobilização política e cultural do movimento negro.

Ela destacou que a organização do evento pelo Conselho Jovem do Decola Cria em um local de resistência é uma forma de fazer história e destacou o protagonismo negro na organização política e na colaboração com outras lutas como o Movimento sem Terra. Segundo ela, a justiça social está intrinsecamente associada à justiça racial, reforçando o papel do movimento negro no enfrentamento à lógica de desumanização da população negra, herança escravocrata que segue se atualizando contra a população negra. Para Vânia,  a solução para estas questões está na luta, na organização e na incidência política do movimento negro.

Veja fotos da Mesa 1 do evento

Mesa 2 – Ativismo negro nas ruas e cultura hip hop

Medusa, presidente da Associação Nilopolitana de Hip Hop, Jota da Via, artista, educador e fundador do movimento Roda da Via, e Magrão, membro do Conselho Jovem do Decola Cria, trouxeram ao debate da Mesa 2 o papel dos coletivos de Hip Hop na luta antirracista. Jota da Via falou sobre a cultura Hip Hop na baixada e como percebe o movimento como uma das principais formas para a juventude entender e discutir políticas de base. O artista aponta para a necessidade de transformar espaços de cunho cultural em pontos de transformação social, debatendo por meio da arte as pautas que afetam a juventude negra a partir de suas próprias linguagens, de forma lúdica e participativa. 

“Os coletivos vêm se apropriando cada vez mais das pautas, vêm buscando fazer ações pontuais e trazer as pessoas para um entendimento prático do que precisa ser feito para gerar impacto social, ambiental e econômico para a nossa galera”. 

Jota da Via

Medusa fala sobre as batalhas de rimas como um espaço para pensar violências e estratégias de luta por meio da arte e das rimas. 

 “A rima nasce a partir do momento que sente a necessidade de expressar algo. Ter um espaço criado para que a pessoa consiga expressar suas dores através da rima tem um papel importante”.

Medusa.

A artista traz ainda o protagonismo de mulheres negras no hip hop, destacando que, apesar da invisibilização dessas mulheres, elas nunca deixaram de existir nesses espaços. São essas mulheres negras, segundo ela, que estão fazendo um trabalho de base nos territórios populares para potencializar jovens negras através do Hip Hop. 

Magrão, do Conselho Jovem do Decola Cria, destaca que o hip hop não é apenas uma cultura: é um movimento, algo que faz com que a juventude encontre um lugar na sociedade. Ele, que conheceu o rap através da banda Racionais, fala sobre sua trajetória no hip hop, refletindo sobre como a arte, o rap e a poesia o ajudaram a acessar espaços, enfrentar desigualdades e dialogar com outros jovens em seu território.

Por fim, os jovens debateram ferramentas para lutar por espaços que são historicamente de pessoas negras e periféricas, para acessar cada vez mais recursos para fortalecerem seus projetos culturais, e seguir mobilizando outros jovens na luta antirracista.

Veja fotos da mesa 2 do evento

Participação do Decola Cria na Campanha 21 Dias contra o Racismo

O encontro promovido pelo Conselho Jovem do Decola Cria evidenciou que o enfrentamento ao racismo exige uma abordagem ampla, que articule memória, formação política, incidência institucional e cultura.

Ao reunir diferentes gerações e trajetórias do movimento negro, o evento reforçou que as conquistas históricas,  como as políticas de ação afirmativa e o reconhecimento da desigualdade racial, são resultado direto da organização coletiva. Ao mesmo tempo, apontou para os desafios contemporâneos, especialmente no que diz respeito à mobilização da juventude e à disputa de narrativas em diferentes espaços. A programação também destacou a potência da cultura como ferramenta política, capaz de engajar, formar e mobilizar jovens a partir de suas próprias linguagens e territórios.

Além deste dia de debates, o Conselho Jovem do Decola Cria realizou um encontro virtual no dia 13 de março sobre “Cultura como Resistência e Preservação da Identidade Negra”, com convidados da Colômbia, África do Sul, Angola e Brasil. . A próxima atividade da Campanha acontecerá no dia 21 de março, Dia Internacional da Eliminação da Descriminação Racial, data em que ocorrerá a Marcha pela região da Pequena África para pautar as questões do movimento negro. 

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