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11 de janeiro, 2019

Sérgio Meresman fala sobre promoção de saúde e educação sexual para pessoas com deficiência

“Espero que, nos próximos 25 anos, o natural seja a igualdade entre as pessoas e os princípios da equidade de direitos”

Sérgio Meresman é psicanalista formado pela Universidade Nacional de Rosario, na Argentina, e Mestre em Saúde Comunitária, pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Consultor para vários governos internacionais na implementação de programas de saúde e agências de desenvolvimento, ele atua como coordenador de Projetos do Instituto Interamericano sobre Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo (IIDI), que está direcionado ao estudo e desenvolvimento de programas de promoção da saúde com foco em crianças, jovens e mulheres com deficiência em varios paises da America Latina.

Integrante do conselho do Cedaps e parceiro da organização há mais de oito anos, ele conversou com a gente sobre o cenário dos direitos sexuais e direitos reprodutivos para pessoas com deficiência nos últimos 25 anos, os principais desafios para a promoção de saúde e educação sexual para essa população e o que ele espera para o futuro. Confira:

  • Ao longo dos últimos 25 anos, de que forma as temáticas da sexualidade e inclusão se desenvolveram na América Latina? Houve avanços?

Era muito difícil falar sobre sexualidade para pessoas com deficiência há 25 anos. Até muito pouco tempo atrás, essa população era escondida, abandonada e sofria todo tipo de carência. Ninguém as considerava como sujeitos com direitos sexuais e direitos reprodutivos e a sexualidade era um completo tabu, com todo tipo de prejuízo e barreira para essas pessoas conseguirem exercê-la, falar ou tentar reproduzir relações que tenham como objetivo o prazer e/ou procurar amor. É claro que houve avanços, mas são avanços sob um ponto de partida de muita carência e exclusão a qualquer possibilidade das pessoas com deficiência exercerem sua sexualidade.

  • Falando especificamente sobre Brasil, como você vê o desenvolvimento desses temas?

O Brasil tem avançado bastante na conquista de direitos, a partir da Convenção das Pessoas com Deficiência. Talvez a área de direitos sexuais e reprodutivos não tenha tido tanto avanço como gostaríamos. É uma área que precisa de educação sexual, fortalecimento de serviços, para melhorar sua capacidade de receber pessoas com deficiência, atendendo suas necessidades referentes à sexualidade, ao planejamento dela e da prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). As pessoas com deficiência ainda tem muito pouco acesso a esses serviços.

Avançamos pouco também na acessibilidade das campanhas de prevenção e de promoção da saúde e na visibilidade dada às pessoas com deficiência, como suas destinatárias e participantes. Muito pouco avanço, ainda, na produção de materiais acessíveis, sejam em libras, ou em formatos maiores, alternativos e simplificados, de acordo com as necessidades dessa população.

Temos algumas experiências promissoras e bem sucedidas, de algumas organizações, serviços e programas que estão rompendo tabus, mas ainda é pouco abrangente.

  • Quais são os desafios de falar sobre sexualidade para pessoas com deficiência atualmente? Como superá-los?

Um desafio é a capacitação dos professores e profissionais de saúde para oferecer informação, educação e serviço relacionados à sexualidade e aos direitos sexuais e reprodutivos das pessoas com deficiência. Precisam se preparar, quebrar seus próprios preconceitos e tabus.

Outro desafio é abrir espaço nas organizações de pessoas com deficiência, para que elas passem a acolher iniciativas que tenham a ver com esse tema. Muitas ainda estão fechadas e com medo de se abrir para a necessidade de promover a educação sexual.

Também temos um desafio muito grande para as mulheres com deficiência, que são, dentro dessa população, as principais vítimas de violência e manipulação sexual. Em geral, por falta de acesso à educação e alternativas de emprego e dependência econômica, são vítimas de abuso sexual. O empoderamento dessas mulheres é um desafio muito importante.

  • Como você chegou ao Cedaps e como você avalia a atuação da organização, quando falamos de sexualidade e deficiências?

 São muitos anos de colaboração em promoção da saúde e direitos sexuais com o CEDAPS. Nos últimos seis, com a ajuda do Instituto Interamericano sobre Deficiência e Desenvolvimento Inclusivo (IIDI) começamos a atuar com deficiências, primeiramente com projeto muito interessante de educação inclusiva, chamada Escola de Todos, e nos últimos anos desenvolvemos o Caminhos da Inclusão. É uma parceria muito querida, importante e potente, que precisa continuar se desenvolvendo e gerando outras parceiras.

  • O que você espera para os próximos 25 anos?

Eu espero que as pessoas consigam desnaturalizar a exclusão, acabar com a aceitação passiva que predomina em muitas organizações, instituições e famílias, e que nos próximos 25 anos o natural seja a igualdade entre as pessoas e os princípios da equidade de direitos, de forma que isso resulte em uma sociedade melhor preparada para conviver, para se ajudar solidariamente e para conquistar todos os níveis de desenvolvimento que estão sendo propostos no caminho sustentável e dentro da perspectiva do desenvolvimento inclusivo.