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29 de junho, 2017

MULHER TRANSEXUAL E TRADUTORA DE LIBRAS: UMA ATUAÇÃO CONJUNTA DE AFIRMAÇÃO DE DIREITOS

Alessandra aprendeu libras aos 12 anos e desde os 18 atua profissionalmente como tradutora

Alessandra Ramos Makkeda (2)

Alessandra Ramos Makkeda aprendeu libras aos 12 anos e aos 18 tornou-se tradutora de libras profissional. Para ela, uma mulher transexual que sabe o que é sofrer com o preconceito, o mais importante desse trabalho é garantir o direito das pessoas surdas à comunicação.

  • Como e quando você começou a fazer tradução em libras? Qual a importância desse trabalho para você?

Eu aprendi libras na igreja que minha família frequentava. Lá existia uma comunidade surda que se reunia. Fiz o curso e aos 13 comecei a traduzir na própria igreja. Aos 18 anos me tornei tradutora e intérprete profissional. A linguagem tem uma função importante no grau de exclusão das pessoas e é muito gratificante para mim, enquanto mulher transexual que também sofre com essa exclusão, poder contribuir para que as pessoas surdas tenham acesso à informação. Não só com o trabalho de tradução, mas eu tento apoiar essas pessoas de qualquer maneira.

  • Como é ser uma mulher trans trabalhando para pessoas com deficiência? Que desafios essa combinação traz?

No meu trabalho como tradutora eu tenho o desafio de lidar com pessoas que têm seus credos e suas crenças pré-estabelecidos. Boa parte da comunidade surda é composta por pessoas religiosas, principalmente cristãos católicos e evangélicos pentecostais. Ainda existe um pouco de dificuldade em estabelecer uma comunicação por serem identidades que, tradicionalmente, se chocam. Existe uma resistência, inclusive entre os tradutores de libras profissionais. São barreiras que eu enfrento no meu dia a dia. Ao mesmo tempo, outra parte da comunidade surda me acolhe muito bem. As pessoas surdas destacam e lutam muito pelo respeito a sua identidade e a sua cultura, assim como eu. Temos isso em comum.

  • No Dia Mundial do Orgulho LGBT, celebrado ontem, não podemos esquecer que o Brasil é o país que mais mata transexuais e que essa população tem direitos básicos cerceados. Como superar a transfobia no nosso país, do ponto de vista de uma mulher trans?

Precisamos entender que a transfobia, o preconceito e o ódio são problemas estruturais, que fazem parte da elaboração de um arcabouço legal no que diz respeito aos direitos dessas pessoas. Mas vencer a transfobia também depende de uma mudança de atitude geral das pessoas. É necessário um esforço geral da sociedade, em todos os setores. Um trabalho conjunto das artes, cultura, do legislativo, dos demais poderes, dos ativistas. Se compararmos, já conquistamos muito, mas ainda precisamos avançar mais. Algumas novas políticas, como a inclusão do nome social no Enem, que está permitindo que mais pessoas transexuais entrem no mercado de trabalho, são exemplos do caminho que devemos seguir. Mas ainda está indo devagar. Precisamos trilhar um bom caminho e barrar o retrocesso vindo dos setores mais conservadores, que refletem mais diretamente na educação e na política. Precisamos trazer a sociedade cada vez mais para essa discussão, forçando a classe política a mudar. O conservadorismo só existe, pois encontra apoio em algumas parcelas da sociedade.