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Notícias

29 de outubro, 2007

Guerra urbana x direito à vida nas palavras de um jovem do Alemão

O texto abaixo foi escrito por Brito Andrade*, 20 anos, morador do Complexo Alemão, um dia após a chamada “megaoperação”, realizada nas comunidades do Complexo por policiais civis, militares e por soldados da Força Nacional de Segurança. O texto expressa algumas reflexões e sentimentos de quem está na linha de frente das chamadas ações para “asfixiar as organizações criminosas”.

Todos os instrumentos da mídia divulgam a expressão “Guerra Urbana” (G.U.) quando querem falar da situação da violência. Dizem que essa tal guerra está afetando o Rio de Janeiro quando, na verdade, ela ocorre de forma direta para uns e indireta para outros.

O sofrimento maior provocado por essa ‘guerra’ concentra-se no interior das comunidades (morros e favelas do Rio), onde a ação é direta. Porque lá habitam seres chamados por lei de ‘cidadãos’, que, no entanto, não são tratados como tais, já que neste território a atuação do poder público não condiz com a atuação que se dá fora: ou seja, esses cidadãos são obrigados a viver tendo diferentes referências de leis a serem seguidas: a Constitucional e a “Faccional”. E os cidadãos moradores das comunidades vivem como verdadeiros réus de ambas as “leis”.

Os reflexos da chamada “G.U.” se encontram onde não são mostrados. Estão onde câmeras não podem filmar ou fotografar para conseguir audiência: eles se escondem no imaginário de crianças que assistem seus pais serem agredidos, de mães que vêem suas filhas sendo violentadas ou do jovem cidadão ou pai de família que vê sua dignidade indo embora ao levar tapa na cara e ser brutalmente agredido verbal e fisicamente.

Ser refém da violência já virou o destino de milhares de moradores das comunidades do Rio. Destino esse que consiste em se esquecer dos seus direitos fundamentais e negligenciar deveres para tentar sobreviver. Para exercer o de ir e vir temos que arriscar perder nosso direito mais precioso que é a vida, já que, no caminho de nossas casas, nos deparamos com tiros e bombas letais.

A morte é apenas uma conseqüência, uma estatística; afinal, na contagem da Segurança Pública, morador morto é bandido morto. Uma afirmação dessas, a mídia divulga e o povo aceita. É dada a sentença de cidadãos que nada tinham a ver com o tráfico ou que nada deviam às “Leis”, mas que em seu julgamento final foram tachados pela sociedade como bandidos e acabaram entrando nas estatísticas.

Seria leviano dizer que nas comunidades só existe “gente de bem”; é preciso dizer que milhares de moradores são diariamente reprimidos pela minoria de bandidos que lá existem. Mas também é preciso dizer que, além da opressão do tráfico, um morador de comunidade tem seus direitos violados nas operações da polícia, quando ocorre uma entrada violenta de policiais, por vezes despreparados, e com um objetivo específico: “pegar o bandido”. A partir do momento em que esse objetivo é traçado nada mais importa. Não importa se cidadãos estão na frente: serão apenas “auto de resistência” (obstáculos no caminho).

No nível de violência em que nos encontramos é necessário dizer ao invés de basta, outras palavras mais esperançosas, como vida e dignidade. Pois é nelas que o poder público deve investir e a sociedade deve aceitar e defender. Somente dando valor à vida e à dignidade humana nossos governantes investirão em saúde, educação e cidadania como um caminho possível para a resolução, a longo prazo, desse problema urbano.

*nome fictício

 

(Publicado em 28-06-07)