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Notícias

28 de dezembro, 2007

Reunião no Rio discute Aids e deficiências

Segundo dados do IBGE aproximadamente 1,5% de brasileiros tem algum tipo de deficiência. Mas o que ainda é pouco discutido é que parte dessa população desenvolveu a deficiência em decorrência de infecção pelo vírus HIV.

Para dar visibilidade ao tema e encontrar soluções em conjunto, de 26 a 27 de novembro, o Cedaps (Centro de Promoção da Saúde), Ministério da Saúde, Secretaria Especial de Direitos Humanos, Coordenação Estadual de DST/Aids no Rio de Janeiro e Maria Aparecida Lemos, do MNCP (Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas) e membro da RNP+ realizaram uma Reunião Nacional sobre Aids e Deficiência, no Rio de Janeiro.

A reunião teve como principais objetivos debater a correlação entre DST/HIV/Aids e deficiências; estimular o debate em torno do exercício da sexualidade da pessoa com deficiência; identificar situações de vulnerabilidade às DST/HIV/Aids relacionadas às deficiências; aprofundar o debate sobre deficiência como um dos agravos da Aids; promover o intercâmbio de experiências já existentes nas áreas de saúde da pessoa com deficiência e DST/HIV/Aids e obter subsídios para o aprofundamento destes temas na formulação de políticas públicas integradas/intersetoriais.

“Decidimos realizar esse encontro como pontapé inicial para construção de material e políticas para pessoas com HIV e deficiências; material em braile e em linguagem de sinais para os surdos. Não existe uma cartilha de prevenção em braile para os cegos. Algumas organizações até produzem, mas é muito pontualmente, não é nacional”, diz Maria Aparecida Lemos (Cida).

Cida fala como alguém que conhece bem de perto o assunto. Em 2000, ela descobriu que era portadora do HIV. Um ano depois, a professora ficou cega em decorrência de doença oportunista causada pelo citomegalovírus [vírus que ataca a retina]. Num primeiro momento, Cida conta que foi difícil encarar o diagnóstico, mas atualmente, não faltam coisas para ela fazer.

“Quando descobri que era portadora do vírus HIV tinha acabado de fazer o curso de turismo, que fiz com objetivo de viajar e nunca pensei que cega, fosse viajar tanto. Hoje, conheço o Brasil de norte a sul, além de outros países. Tive que parar e recomeçar. Hoje faço muitas palestras em escola, comunidades e empresas.”

Um dos temas sempre presentes nas palestras de Cida é a luta pelo diagnóstico precoce da infecção pelo HIV. Ela mesma foi tratada de diversas outras doenças até chegar ao diagnóstico correto: “Me trataram de diversas outras coisas, mas na verdade era o HIV que já estava manifestando”.

Vencendo preconceitos

Uma das primeiras agentes de prevenção formadas pelo Cedaps, Jaciara Gomes, 44 anos, descobriu há 5 que estava com osteoporose. A partir daí, veio o diagnóstico correto: HIV. Atualmente Jaciara tem o lado direito do corpo paralisado e também não enxerga com o olho direito.

Mãe de três filhos, para Jaciara, pior do que ter que enfrentar a doença, foi enfrentar o preconceito na comunidade onde morava, próximo ao Centro do Rio: “Morava com minha filha mais nova. Os bandidos começaram a jogar indiretas por eu ser soropositiva. Ela revidou quando um dos bandidos foi falar com ela que eu era ‘aidética’. Bateram nela e tivemos que sair de lá só com a roupa do corpo”.

Para trás, além do trabalho que já desenvolvia de prevenção das DSTs/Aids, Jaciara deixou casa própria com terraço para morar de aluguel na Baixada Fluminense. A filha foi mandada embora do emprego porque a loja em que ela trabalhava não quis cobrir os custos com a passagem da moça. A família teve que desenvolver outra vida.

“Para mim a pior coisa foi ter que lidar com o preconceito. Hoje não digo que tenho Aids por medo de falar e acontecer alguma coisa de novo. Ainda tem muito preconceito no beijar, no tocar, no sentar Tive que recomeçar do zero. Minha família é minha razão de viver.

Para Ana Paula Prado Silveira, responsável adjunta pela articulação com a sociedade Civil e Direitos Humanos do Programa Nacional DST/Aids, o diferencial do evento foi ter uma comissão organizadora diversificada para discutir o tema:

“Esse encontro envolveu mais áreas de governo extrapolando inclusive algumas políticas públicas. A gente vem com o compromisso de somar e fazer toda essa reflexão. No âmbito do Ministério esse é um tema novo e muitas coisas ainda estão sendo discutidas”.

 

(Publicado em 21-12-07)