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02 de janeiro, 2019

Homens pelo fim da violência contra as mulheres

Assistente Social José Adriano foi parceiro na área da saúde e comenta os 25 anos do CEDAPS 

José Adriano é formado em Serviço Social e especialista em Administração de Projetos sociais. Membro do Grupo Temático de Gênero e Masculinidade do Consórcio do Grande ABC, ele também é colaborador do Programa “E Agora José?”, voltado para homens apenados na Lei Maria da Penha. José Adriano atuou no CEDAPS de 2000 à 2004 e nos concedeu uma entrevista especial que fala sobre aqueles que lutam pelo fim da violência contra as mulheres.

Segundo José Adriano, na estrutura de sociedade que vivemos, é preciso reconhecer esse histórico machista que se propaga até os dias atuais. A forma tóxica tende a ser naturalizada, descaracterizando a luta das mulheres. Só com este reconhecimento, podemos começar a pensar as mulheres como iguais, despindo-se dos privilégios sociais herdados pelo simples fato de serem homens, pontos de partida reflexivos para novos atos e novas práticas.

“Ao assumir-se parte do constructo de sociedade machista e reconhecer que as relações que ela estabelece são tóxicas e violentas pela sua natureza baseada na desigualdade, este “homem” precisa refletir seu próprio papel relacional com as mulheres, precisa assumir práticas que construam relações mais iguais, precisa ser proativo na defesa dessas relações de iguais”, disse.

O próprio termo feminicídio é muito novo para a população. A violência contra a mulher, em especial modo aquela que causa sua morte, sempre existiu e fora justificado dentro do ordenamento jurídico. Ou seja, muitas dessas mortes não eram contabilizadas, e quando o registro era contabilizado, não eram cadastrados como um ato cometido com alguém pelo simples fato de ser mulher. São os movimentos feministas do século XX, na luta por direitos civis, que lançam luz sobre as condições desiguais com que as mulheres são tratadas.

Para José Adriano, existiram avanços na pauta. “Avalio que estamos progredindo na resistência contra o feminicídio. Atos que antes ficavam em algum “lugar escondido”, vêm à tona e ganham o debate aberto da sociedade. Tornam-se alvos de acompanhamento público de luta para a qualificação correta do crime e da responsabilização legal dos culpados. Leis como a Maria da Penha dão suporte jurídico para estes movimentos. Entretanto, a naturalização dessa violência continua forte no componente cultural de nossa sociedade machista, ainda legitima o feminicídio como ‘legítima defesa da honra’”, comenta.

José Adriano trabalhou no CEDAPS de 2000 ao início de 2004. O CEDAPS tem como objetivo promover o fortalecimento de organizações, grupos e comunidades populares e contribuir para o aprimoramento de políticas públicas sustentáveis, inclusivas e saudáveis. Entre suas ações, José Adriano pautou no CEDAPS a temática do protagonismo juvenil, da capacidade dos jovens responderem de forma criativa às suas próprias demandas, sem tutela, apenas com disponibilização de oportunidades.

“Muitos diálogos maduros, técnicos e profundamente humanos, junto àquela equipe do CEDAPS, me ajudaram a tomar decisões importantes em minha vida, que ainda hoje reverberam em novas decisões, nas formas de atuar e nas escolhas das causas que defendo. Creio que é essencial a existência de organizações como o CEDAPS nesse trabalho. A sociedade civil organizada tem como foco as bandeiras de luta e compromisso e exerce pressão sobre as políticas públicas”, afirmou.

Enquanto sociedade civil organizada, o CEDAPS exerce pressão, aponta saídas e possibilidades, cobra responsabilidade e age de forma parceira com o Estado e outras entidades sociais, além de empresas, para o bem social. E isso a ONG tem feito ao desenvolver projetos que empoderam jovens, mulheres e comunidades; que tratam saúde como qualidade de vida, e nessa perspectiva, direitos humanos e cidadania são fundamentais nesse processo. Exemplo é o apoio e a instrumentalização de lideranças, em sua maioria mulheres, no combate a Aids e outras doenças através do seu método de trabalho e da “Rede de Comunidades Saudáveis”, ou o programa “Jovens Construtores”.

Sobre a atuação do CEDAPS no combate ao machismo e a violência contra a mulher, José endossa o trabalho realizado. “No meu entendimento o CEDAPS não afirma “nós somos uma entidade de combate ao machismo e a violência contra a mulher”, o CEDAPS faz acontecer. Combate o preconceito através de suas práticas e de suas escolhas, do direcionamento de suas ações para determinados públicos, o qual busca empoderar. O público dos projetos do CEDAPS são majoritariamente mulheres, pelas condições estruturais da própria organização da nossa sociedade machista. Estatística e culturalmente, as mulheres são quem mais se preocupam com a saúde”, afirma.

Um homem inserido no processo de luta a não violência contra a mulher não é avaliado pelo seu discurso, e sim pelos seus atos reflexivos cotidianos. Uma das principais contribuições do CEDAPS nessa mesma luta, é possibilitar ao público a reflexão de seu papel de protagonista, de ser humano na construção de relações mais igualitárias e equitativas entre homens e mulheres. Segundo José, os próximos anos serão de desafios referentes aos direitos sociais e humanos.

“O principal desafio na minha perspectiva é, antes de tudo, a manutenção dos avanços já conquistados e construídos historicamente pelos diversos movimentos sociais. É de estabelecer espaços de diálogo e sensatez diante de fluxo contrário. Os desafios serão, ainda, construir pontes que ligam os indivíduos à sua humanidade. Mobilizar, com novos instrumentos e tecnologias, mentes e corações para um bem comum, mais justo coletivamente. Desafio é repensar o nosso papel na promoção de novas práticas não violentas, mesmo diante da violência cotidiana”, finalizou.