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19 de setembro, 2018

História de 15 lideranças femininas de favelas do Rio de Janeiro dão origem a livro

Conselheira do CEDAPS, Rogéria Nunes lança obra decorrente da sua tese de doutorado

Rogéria Nunes é assistente social e professora da PUC-Rio. Antes de ingressar como docente na universidade, ela fez parte da equipe do CEDAPS. Atualmente, apesar de não estar mais no dia a dia da organização, segue acompanhando seus projetos e faz parte do seu conselho. “Acompanho, conheço e já estive muito próxima do CEDAPS, desde a sua fundação, e por lá trabalhei por muitos anos. No meu trabalho como professora e pesquisadora, eu não me distancio do trabalho da organização, trabalhando com lideranças femininas das favelas do Rio de Janeiro e de regiões de periferia”, conta ela.

Da sua tese de doutorado, surgiu o livro “Mulher de favela, o poder feminino em territórios populares”. Nele, Rogéria conta com a história de vida de 15 lideranças femininas, de 15 favelas do Rio, trazendo a trajetória dessas mulheres, através das suas próprias narrativas. “Eu não tenho a intenção de fazer interpretações.  Eu quis ouvir essas vozes. O livro amplifica as vozes delas, que fazem uma luta intermitente, social e política, que tem um ativismo cotidiano no seu trabalho comunitário. Tentei sistematizar essas experiências, para que as outras pessoas possam conhecer as histórias!”, destaca a professora.

Rogéria é experiente no assunto. Sua a trajetória começou nos anos 80, quando, segundo ela, já existia a presença feminina na vida das favelas, mas de uma forma mais discreta. “As associações de moradores eram, em sua maioria, formadas por homens. Nesse momento, começam a surgir as associações formadas por mulheres, muito em decorrência da luta por creches, movimentos ligados à educação e ao mercado de trabalho”, conta Rogéria. Dessa época para cá, as mulheres começaram a assumir um pouco mais a frente a frente em determinados dentro dos espaços populares, que hoje está mais equilibrado, com uma presença feminina grande no trabalho comunitário. “Esse trabalho se dá através de organizações de base comunitárias e associações de mulheres. Vejo que ainda prevalece uma divisão de gênero nas associações de moradores, com mais homens nesse lugar. Mas é um movimento que eu chamo de feminização do poder nos espaços populares, com uma emergência nos anos 90 para cá”, destaca.

É impossível não associar três determinantes que possuem uma grande influência na vida das mulheres de favela: o racismo, o machismo e o preconceito decorrente do local de moradia dessas pessoas. “Quando falamos disso, marcamos um lugar bem especifico dessas mulheres. O enfrentamento a isso deve ser com militância e luta politica. Com o fortalecimento, protagonismo e emancipação delas, que devem se reconhecer como mulheres que não se subjugam ou se submetem pela questão imposta do gênero”, diz Rogéria. Ela destaca ainda a importância de valorizar as favelas, ao contrário do que é feito pela imprensa: “também devemos fazer a afirmação do lugar aonde elas vem, ou seja as favelas e outras periferias, valorizando esses locais. Mostrando que, além dos problemas que a grande mídia, historicamente, faz questão de colocar em pauta, nesse lugar existem pessoas interessantes que fazem o contraponto a isso”. A insuficiência de politicas é compensada com uma presença muito marcante da solidariedade, uma forte relação de vizinhança, onde essas pessoas têm uma relação próxima, muita colaboração e cooperatividade.

Em consonância com o trabalho de Rogéria Nunes, o CEDAPS é comprometido com a valorização e o fortalecimento dos espaços populares. “Não de fazer o movimento de fora pra dentro, mas buscando fortalecer o movimento de dentro pra fora. Historicamente esse é o diferencial do CEDAPS, na medida que a organização sempre esteve junta nessas causas populares. Chamando e fazendo junto”, ressalta.

Segundo ela, para o futuro, temos o desafio de pensar em como fazer um Brasil menos desigual. “Que a gente tenha uma afirmação dos valores de igualdade entre homens e mulheres, e que esses espaços populares e o endereço das pessoas não signifiquem uma marca pejorativa, que as colocam em posição de subalternidade”, finaliza.

O livro “Mulher de favela, o poder feminino em territórios populares” será lançado no Centro Cultural da Justiça Federal, dia 19 de setembro, às 19h.