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12 de junho, 2015

“É preciso ter um olhar mais ampliado e pensar nos determinantes sociais”, afirma o coordenador do OBT

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Ao conduzir a reunião de maio do Fórum ONGs Tuberculose do Rio de Janeiro, Carlos Basilia, coordenador do Observatório Tuberculose Brasil, abordou aspectos importantes na luta pelo combate à doença.

Segundo Basilia, para prevenir a Tuberculose é preciso diminuir as condições urbanas de disseminação. Durante o debate entre os participantes do encontro também foram pautadas a importância da academia em dar visibilidade à doença e os problemas no Brasil, como o diagnóstico tardio.

Confira a entrevista com Basilia sobre qual é a visão predominante da Tuberculose no meio acadêmico e também entre médicos sanitaristas e o movimento social:

Como a academia está olhando para os determinantes sociais em relação a Tuberculose?

Do ponto de vista da TB ela é muito pouco abordada ou aprofundada. De uma forma geral, a visão predominante é uma visão biomédica e farmacológica que concentra muito a atenção, o estudo, a pesquisa e a produção de conhecimento em cima desta abordagem que busca o foco no diagnóstico e tratamento.

E uma outra parte complementar é a questão operacional, como é que se organiza o serviço, como funciona o sistema de saúde, como os serviços se organizam para garantir o acesso e como se dá esses acessos nos níveis das complexibilidades, na atenção básica, no nível primário, secundário e terciário. Mas, especificamente falando da determinação social, essa é uma discussão que ainda precisa ser feita e mais aprofundada, ampliada e melhor qualificada.

O olhar do SUS e a diferença da prevenção e tratamento, bem como o olhar dos médicos sanitaristas, é diferente do olhar do movimento social?

A intervenção na saúde é um aspecto, mas é preciso ter um olhar mais holístico e ampliado para a determinação social e pensar na necessidade de intervir na questão da urbanização, condição de moradia, de renda e nas próprias condições de qualidade de vida dessa população. O perfil predominante na TB hoje é de pessoas de baixo poder aquisitivo, nível de informação precário, que vivem em condições de insalubridade, em favelas, periferias, casas amontoadas e com pouco acesso à informação ou ao serviço de saúde, com coberturas ainda insuficientes do Programa de Saúde da Família e de agentes de saúde. A visão ainda é aquela que o sujeito tem que procurar a unidade de saúde. Ele tem que se sentir mal, tem que perceber que está comprometido no seu dia-a-dia de tal forma que busque uma unidade de saúde e acabe sendo diagnosticado, quando o ideal seria uma busca mais ativa destes casos, na medida que você tem territórios, regiões, veiculações de ações mapeadas como de alta incidência ou de epidemia concentrada da doença. O correto seria que houvesse uma cobertura e uma melhor qualidade na busca ativa destes casos.


O que vem à luz é a visão da questão biomédica e farmacológica, diferente do ponto de vista dos pacientes que trazem um histórico e um relato da vivência do fato de adoecer e do impacto econômico, social e humano, do estigma, discriminação e isolamento. Quando você ouve pacientes, familiares e os movimentos que discutem a TB, há sempre um apelo no sentido de olhar para além do bacilo. Então é preciso olhar a prevenção e entender que não tem só o ponto de vista do diagnóstico e tratamento ou da vacina, mas pensar a intervenção nos espaços urbanos que favoreçam sua disseminação, interferir na determinação social. É preciso olhar, também, para a necessidade de se constituir redes e grupos de apoio e solidariedade às pessoas. Não basta somente a oferta biomédica do tratamento e diagnóstico, é preciso ter um olhar maior, não apenas para o SUS. É preciso articular a saúde com a assistência. Estudos da própria Organização Mundial de Saúde assumem que existe um impacto econômico da doença. Além do impacto na saúde, social e humano, temos que abordar o ponto de vista de integrar políticas e programas e se ter uma visão mais integral.