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07 de abril, 2016

“As condições de pobreza e desigualdade fazem com o que o Brasil seja perfeito para o Zika”, diz Daniel Becker, mestre em Saúde Pública pela ENSP, da Fiocruz

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A tríplice epidemia de Zika,  Denque e Chikungunya está intimamente ligada às desigualdades sociais e à falta de planejamento urbano. Isso é o que constata Daniel Becker, médico pediatra com Residência em Pediatria pela UFRJ e Mestre em Saúde Pública pela ENSP – FIOCRUZ. No Dia da Saúde, conversamos com ele, que é fundador e conselheiro do CEDAPS, sobre o combate ao Aedes aegypti e a relação da epidemia e do avanço do vírus Zika, da Denque e do Chikungunya às questões sociais.

CEDAPS: Qual ligação você faz entre a proliferação do Aedes aegypti e, consequentemente, o avanço do vírus Zika, da Denque e do Chikungunya e às condições precárias de moradia, como as que existem em muitas comunidades?

Daniel Becker: As epidemias do Zika, da Dengue e do Chikungunya são muito representativas da situação da desigualdade no Brasil. O mosquito encontrou nas cidades brasileiras, com a urbanização caótica, sem controle e sem politica de moradia, condições perfeitas para se proliferar.

Em comunidades, temos construções irregulares, feitas com materiais precários, sem projeto arquitetônico, facilitando a proliferação do mosquito nas calhas, nas irregularidades das obras, onde a agua fica empossada, criando condições favoráveis para o mosquito procriar.

As condições de pobreza e desigualdade fazem com o que o Brasil urbano seja um lugar perfeito para essa tríplice epidemia, que é especialmente cruel para os moradores de favelas e áreas mais pobres, que além dos problemas de urbanização e de construção, de irregularidades de terreno etc, ainda precisam lidar com a falta de políticas públicas, a falta de saneamento básico, de fornecimento de água, fazendo com que as pessoas armazenem água de maneira irregular e favoreçam a proliferação do mosquito nesses reservatórios.

CEDAPS: As pessoas que vivem em comunidades estão mais vulneráveis ao Zika? Por quê?

Daniel: Por estarem mais expostas ao mosquito, além de terem a saúde mais precária, em razão das condições ruins de vida, as populações de comunidade estão mais vulneráveis. Isso se soma ao menor acesso a políticas públicas de saúde, como o pré-natal, que é fundamental, à dificuldade de fazer o diagnóstico do Zika, às condições nutricionais que nem sempre são as melhores, além de ser mais difícil usarem repelente para se proteger do mosquito.

São dificuldades relacionadas à desigualdade urbana e social no Brasil, que tornam essas pessoas mais vulneráveis à qualquer doenças, inclusive à tríplice epidemia.

CEDAPS: Que cuidados um bebê com microcefalia necessita? É possível encontrar o que esse bebê necessita no sistema público de saúde?

Daniel: O bebê com microcefalia necessita de uma atenção multidisciplinar, com pediatra, psicólogo, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, neurologista, terapeuta ocupacional, enfim, é um cuidado complexo, difícil e sofisticado. Ainda é muito difícil encontrar esse cuidado integrado no Brasil, mesmo no setor privado. Eu diria até que é mais fácil encontra-lo na rede pública.

Nas instituições públicas, como ambulatórios, universidades, entre outras, é mais comum que essas equipes das diferentes áreas se encontrem e trabalhem juntas. O problema está no abandono e na falta de financiamento do SUS, que está dificultando o funcionamento de unidades desse tipo. O ideal seria que essas crianças fossem cuidadas perto da sua casa, pelo Saúde da Família, que teria, pela sua proposta, condições de cuidar delas.

Mas, por conta da falta de recursos, pelo fato da equipe estar sobrecarregada, essa atenção não se dá da maneira correta. Além disso, existem poucos Núcleos de Apoio à Saúde da Família, que é onde estão os psiquiatras, educadores físicos, fisioterapeuta, nutricionista, etc, que são fundamentais no cuidado nos casos de microcefalia, e eles não funcionam como deveriam, com equipes limitadas e sobrecarregadas, fazendo com que o atendimento seja precário. É preciso investir no Saúde da Família e nos Núcleos de Apoio.

CEDAPS: De que forma o combate ao Aedes aegypti deve ser feito para que seja eficaz, considerando as especificidades de territórios como favelas, ocupações, etc?

Daniel: Para combater o Aedes aegypti é preciso uma reforma urbana. É necessário entrar nas favelas e na periferia, investir em infraestrutura, levar água e esgoto, regularizar as construções de casa, com fiscalização nas calhas e caixas d’água, abrir ruelas, fazer a coleta de lixo constante e universal, além de oferecer políticas públicas de educação e saúde. Serviços urbanos de boa qualidade, em geral, atenuariam essa epidemia.